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PORTUGUÊS: Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, ... ESPANHOL: Espanha, México, EUA, Argentina, Colômbia, Chile, Venezuela, Peru, ... ACEDA AO MERCADO LUSO-ESPANHOL DA INDÚSTRIA ALIMENTAR O GRUPO EDITORIAL IBÉRICO DE ÂMBITO INTERNACIONAL INTEREMPRESAS MEDIA - ESPANHA Tel. +34 936 802 027 comercial@interempresas.net www.interempresas.net/info INDUGLOBAL - PORTUGAL Tel. (+351) 215 935 154 geral@interempresas.net www.induglobal.pt
Jarvis España Polígono Industrial Polingesa Calle Farigola 28. 17457 Riudellots de la Selva Girona. España www.jarvisespana.es info@jarvisespana.es T 972 478 766 T (Sebastian Azzollini) +34 675 031 600 Diseñado, fabricado y probado en Middletown, Connecticut, EUA SPC 165 Sierra Circular Neumática SEC 180-4 Sierra Circular Eléctrica Motor eléctrico con doble aislamiento para el máximo rendimiento. Freno del disco para una parada rápida. Ligera y flexible: se puede utilizar a una sola mano. Más potencia: motor neumático de alta eficiencia para obtener la máxima potencia. CERTIFICADO Leve e flexível: pode ser utilizada apenas com uma mão. Mais potência: motor pneumático de alta eficiência para obter uma potência máxima. Motor elétrico com duplo isolamento para um desempenho máximo. Travão de disco para uma paragem rápida. Serra Circular Elétrica Serra Circular Pneumática Desenhado, fabricado e testado em
SUMÁRIO Edição, Redação e Propriedade INDUGLOBAL, UNIPESSOAL, LDA. Defensores de Chaves, 15 3º F 1000-109 Lisboa (Portugal) Telefone +351 215 935 154 E-mail: geral@interempresas.net NIF PT503623768 Gerente Aleix Torné Detentora do capital da empresa Grupo Interempresas Media, S.L. (100%) Diretora Joana Peres Equipa Editorial Joana Peres, Gabriela Costa, Nina Jareño Marketing e Publicidade Frederico Mascarenhas, Rui Amador redacao_ialimentar@interempresas.net www.ialimentar.pt Preço de cada exemplar 11 € (IVA incl.) Assinatura anual 44 € (IVA incl.) Registo da Editora 219962 Registo na ERC 127558 Depósito Legal 480593/21 Distribuição total +5.200 envios. Distribuição digital a +4.500 profissionais. Tiragem +700 cópias em papel Edição Número 22 – outubro 2026 Estatuto Editorial disponível em https://www.ialimentar.pt/EstatutoEditorial.asp Impressão e acabamento Lidergraf Rua do Galhano, n.º 15 4480-089 Vila do Conde, Portugal www.lidergraf.eu Media Partners: Os trabalhos assinados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. É proibida a reprodução total ou parcial dos conteúdos editoriais desta revista sem a prévia autorização do editor. A redação da iALIMENTAR adotou as regras do Novo Acordo Ortográfico. ATUALIDADE 6 EDITORIAL 7 Fórum debate desafios da segurança alimentar e anuncia regresso em 2028 12 Da linha de produção à fábrica inteligente: a indústria da carne está em transformação 16 Transformação digital na indústria do tomate: uma evolução campanha após campanha 22 Jarvis Espanha cumpre uma década de atividade com a automatização como próximo desafio 24 Entrevista com Paulo Amaral, diretor das feiras Expoalimenta e Expocarne 29 Novas ferramentas para o controlo de riscos microbiológicos no contexto da evolução da regulamentação da UE 46 Segurança alimentar em eventos: o HACCP acontece no terreno 50 Primeira guia linear do mundo com certificação EHEDG para tecnologia alimentar higiénica 52 Cruells: guilhotina H5 para o corte de blocos de produtos congelados 54 Segell Expres: solução de 12 ganchos para o transporte de carne fresca 55 Delta Cafés e Nãm inauguram nova fábrica e triplicam capacidade de produção de cogumelos a partir de borras de café 56 O papel das proteínas alternativas na transformação do sistema alimentar: preparar o futuro 60 Proteína do futuro? Leveduras e subprodutos vegetais ganham espaço no menu 66 Para além da etiqueta: integração da marcação com sistemas robóticos para a paletização automática (Indústria 4.0) 69 'Meat sounding': uma nova fronteira na regulamentação europeia das denominações da carne 72 33 THE VERY BEST: os melhores produtos, equipamentos e soluções Entrevista com Alejo Migones, VP Food Safety & Quality da bioMérieux 37 Desafios atuais na Segurança Alimentar: o papel da ASAE num contexto em transformação 40
6 ATUALIDADE MAIS NOTÍCIAS DO SETOR EM: WWW.IALIMENTAR.PT • SUBSCREVA A NOSSA NEWSLETTER #iAlimentarTalk2026 05 NOVEMBRO, DAS 10H30 ÀS 12H00 EXPONOR - FEIRA INTERNACIONAL DO PORTO | EXPOALIMENTA / EXPOCARNE IALIMENTAR TALK 2026 DA PRODUÇÃO À TRANSFORMAÇÃO: COMPETITIVIDADE, INOVAÇÃO E MERCADO 'iAlimentar Talk 2026' debate o futuro da indústria da carne A revista iAlimentar organiza, no dia 5 de novembro, na Exponor, entre as 10h30 e as 12h00, a 'iAlimentar Talk 2026', integrada nas feiras Expoalimenta e Expocarne. Sob o tema “Da produção à transformação: competitividade, inovação e mercado”, o encontro conta com a parceria institucional da Associação Portuguesa dos Industriais de Carnes (APIC) e do TECMEAT – Centro de Competências do Agroalimentar para o Setor das Carnes. A pressão sobre os custos, a evolução das exigências do mercado e a necessidade de modernização colocam novos desafios à indústria da carne, desde a produção até à transformação. É neste contexto que a 'iAlimentar Talk 2026' reúne profissionais e especialistas para analisar os fatores que influenciam a competitividade do setor e as suas perspetivas de evolução. Entre as oradoras já confirmadas estão Graça Mariano, diretora executiva do APIC, e Dora Gaspar, diretora-geral da TECMEAT. A participação das duas entidades, enquanto parceiras institucionais, enquadra a discussão sobre os desafios que se colocam aos diferentes agentes da cadeia de valor. O programa está a ser finalizado e será divulgado na próxima semana. A 'iAlimentar Talk 2026' pretende afirmar-se como um espaço de debate e partilha de conhecimento entre os profissionais do setor, colocando em perspetiva os principais desafios e oportunidades que marcam a evolução da indústria cárnea, com especial atenção à inovação, à modernização e à competitividade. As inscrições já estão disponíveis online, através da página oficial da 'iAlimentar Talk 2026'. https://encontrosprofissionais.induglobal.pt/iAlimentarTalk2026/
Lusiaves conclui aquisição do grupo espanhol Padesa O Grupo Lusiaves concluiu a aquisição da maioria do capital da espanhola Padesa, reforçando a sua presença no mercado ibérico. A operação eleva para cerca de 9.000 o número de colaboradores do grupo e para aproximadamente 1.500 milhões de euros o volume de negócios. Com cerca de 3.000 colaboradores, 15 empresas e mais de 550 milhões de euros de vendas consolidadas, a Padesa é um dos principais operadores avícolas de Espanha. Com esta operação, o Grupo Lusiaves passa a contar com cerca de 9.000 colaboradores em Portugal, Espanha e França e um volume de negócios de aproximadamente 1.500 milhões de euros. A operação conta ainda com a participação minoritária do Grupo Valora e com a manutenção das famílias Salvadó e Centelles como acionistas e responsáveis pela gestão da Padesa. A aquisição dá continuidade à estratégia de internacionalização do Grupo Lusiaves, depois das aquisições do Grupo Oblanca e da Avícola Segoviana, em 2025. Reforça também a sua capacidade de resposta a clientes e consumidores nos mercados ibérico e europeu, na proteína com maior crescimento no consumo: a carne de aves. Este investimento representa um passo decisivo no desenvolvimento da Lusiaves, orientado para o crescimento sustentado e para uma visão de longo prazo. O projeto garante a manutenção das equipas de gestão da Padesa e a identidade das suas marcas. Assegura também a estabilidade das operações e a continuidade das relações com colaboradores, produtores, fornecedores e entidades locais. EDITORIAL Na indústria alimentar, aumentar a produção não resolve tudo. É nas decisões do dia a dia — na escolha de um equipamento, na organização de uma linha ou no controlo da qualidade — que muitas empresas encontram margem para ganhar eficiência e manter a competitividade. É também por isso que a iAlimentar lança, nesta edição, o The Very Best, um dossier especial dedicado a alguns produtos, equipamentos, tecnologias e soluções para a indústria alimentar em Portugal. Queremos dar a conhecer o trabalho das empresas que desenvolvem respostas para as necessidades de um setor em constante exigência. Nesta primeira edição, houve empresas que aceitaram participar – a Climasun, a EFCIS, a Christeyns, a Inoxpa, a Brother, a Frigicoll, a Wedigitek e a SARA HACCP Digital – a todas, o nosso agradecimento, extensivo aos anunciantes e parceiros que continuam a apoiar a iAlimentar e a confiar no trabalho da revista. O debate sobre os desafios da indústria vai continuar a cinco de novembro, na Exponor. Entre as 10h30 e as 12h00, a iAlimentar Talk 2026, integrada na Expoalimenta e na Expocarne, reúne-se em torno do tema “Da produção à transformação: competitividade, inovação e mercado”. A APIC e a TECMEAT são parceiras institucionais. Nesta edição, há vários exemplos de como estes desafios chegam ao terreno. Paulo Amaral, diretor das feiras, resume a questão numa frase: já não basta produzir mais; é necessário produzir melhor. Nos matadouros, a automatização procura responder à dificuldade de trabalhar peças com características diferentes. Na campanha do tomate, os equipamentos e os processos têm de acompanhar o ritmo da produção e da transformação, sem criar estrangulamentos. São realidades distintas, mas ambas mostram o peso que a organização do trabalho e a tecnologia têm no desempenho industrial. A segurança alimentar merece igualmente atenção. O primeiro Fórum IFS Lisboa, bem como os contributos da bioMérieux e da ASAE, trazem para a discussão a prevenção, o controlo e a responsabilidade das empresas. Há ainda outras questões que prometem marcar o setor. As proteínas alternativas continuam a suscitar debate sobre a composição e o futuro da oferta alimentar. Já a rotulagem e as regras europeias relativas à utilização da designação “carne” mostram como a apresentação dos produtos ao consumidor está sujeita a exigências que as empresas não podem ignorar. Para quem gere uma unidade industrial, tudo isto tem consequências práticas. É preciso avaliar investimentos, perceber onde a automatização compensa, reduzir perdas, cumprir os requisitos de segurança e preservar a qualidade sem deixar fugir os custos. Nem sempre há respostas imediatas, e uma solução adequada a uma empresa pode não servir outra. Conhecer as opções disponíveis e perceber o que realmente acrescentam ao processo produtivo é, por isso, parte do trabalho de gestão. A iAlimentar quer continuar a acompanhar estas decisões, dando espaço às empresas, às soluções técnicas e aos temas que pesam no futuro da indústria alimentar. Produzir é apenas uma parte do desafio
8 ATUALIDADE MAIS NOTÍCIAS DO SETOR EM: WWW.IALIMENTAR.PT • SUBSCREVA A NOSSA NEWSLETTER Südpack aposta em embalagens monomaterial para massas frescas A Südpack desenvolveu soluções de embalagem para massas frescas que combinam filmes de elevado desempenho com estruturas monomaterial de polipropileno (PP), concebidas segundo princípios de Design for Recycling (DfR). As propostas abrangem formatos flow pack e termoformados destinados a produtos como gnocchi, Spätzle, ravioli e outras massas recheadas, procurando conciliar proteção do alimento, eficiência de materiais e reciclabilidade. A elevada humidade das massas frescas exige às embalagens propriedades de barreira e capacidade para preservar a vida útil dos produtos. Ao mesmo tempo, a evolução deste segmento tem levado os fabricantes a trabalhar com diferentes formatos, porções e propostas de produto, aumentando a necessidade de soluções de embalagem adaptadas a diferentes requisitos de conservação e processamento. Por tudo isto, a Südpack recorre à coextrusão para combinar diferentes camadas funcionais num único filme, ajustando características como propriedades de barreira, resistência mecânica, capacidade de selagem e processabilidade. Segundo a empresa, esta tecnologia permite, em determinadas aplicações, obter o desempenho necessário com espessuras inferiores às de estruturas laminadas, reduzindo o consumo de matéria-prima e o peso da embalagem. Setor alimentar prepara norma global para calcular a pegada dos produtos A Global Sustainable Transition Alliance (GSTA), uma aliança internacional de empresas, organizações não governamentais (ONG), consultoras e fornecedores de ferramentas de avaliação de produtos, está a desenvolver uma norma global para calcular a pegada ambiental dos produtos no setor alimentar e das bebidas. A iniciativa, lançada em março de 2026 pela Waste and Resources Action Programme (WRAP) e pela Wageningen University & Research (WUR), pretende criar um método comum para quantificar, numa primeira fase, as emissões de gases com efeito de estufa (GEE). A nova norma procura responder à diversidade de métodos atualmente utilizados pelas empresas para calcular a pegada ambiental dos produtos. De acordo com a GSTA, a utilização de diferentes metodologias e bases de dados pode originar resultados inconsistentes, dificultando a comparação dos impactos ambientais entre produtos e ao longo das cadeias de abastecimento. O trabalho da aliança pretende estabelecer regras mais específicas e detalhadas para permitir que as pegadas dos produtos sejam comparáveis, independentemente da entidade responsável pelo cálculo. Para esse efeito, a GSTA vai alinhar a metodologia com referenciais internacionais, incluindo o Greenhouse Gas Protocol (GHG Protocol), a Science Based Targets initiative (SBTi), a Partnership for Carbon Transparency (PACT), a International Organization for Standardization (ISO) e a Product Environmental Footprint (PEF).
9 ATUALIDADE MAIS NOTÍCIAS DO SETOR EM: WWW.IALIMENTAR.PT • SUBSCREVA A NOSSA NEWSLETTER Olivum prevê aumento de 10% na produção de azeite na campanha 2026/2027 A Olivum – Associação de Olivicultores e Lagares de Portugal apresentou as perspetivas para a Campanha Oleícola 2026/2027. Com base na previsão relativa à colheita dos seus associados, a associação estima um aumento de produção na ordem dos 10% face à campanha anterior, aproximando o país dos valores de referência registados na campanha 2024/2025. Após uma campanha anterior que totalizou 160 mil toneladas de azeite a nível nacional, as previsões para este ano apontam para uma recuperação do setor. Com este desempenho, a Olivum consolida a sua liderança setorial, mantendo uma representatividade na ordem dos 70% da produção nacional. A propósito da próxima campanha, Gonçalo Moreira, gestor da Olivum, afirma: “As temperaturas elevadas poderão favorecer uma antecipação da maturação da azeitona, variável consoante as regiões e as variedades. Esta evolução poderá levar alguns olivicultores a iniciar a colheita mais cedo, com a correspondente entrada em funcionamento dos lagares.” O responsável sublinha que “é ainda prematuro tirar conclusões sobre a campanha, mantendo-se o compromisso do setor com a qualidade de excelência do azeite português, reforçando o posicionamento de Portugal no topo dos grandes produtores mundiais”. Paralelamente às boas perspetivas de colheita, a Olivum acompanha com atenção a evolução dos custos de produção, nomeadamente os associados aos combustíveis, indicando que, em Portugal continental, o preço médio do gasóleo agrícola registou uma subida de cerca de 60% e o gasóleo rodoviário aumentou 40%, quando comparado com o período homólogo da campanha. Este encarecimento dos combustíveis constitui um desafio adicional que o setor enfrenta na gestão da presente campanha. Cooperativa de Moura e Barrancos lança azeites monovarietais A Cooperativa Agrícola de Moura e Barrancos apresenta, pela primeira vez, dois novos azeites monovarietais, Cobrançosa e Galega, numa aposta que reforça o compromisso com a valorização do azeite produzido na região de Moura e Barrancos. Em cada uma das novas garrafas, é possível degustar um produto de categoria superior, com origem nos olivais dos solos argilo-calcários da região. “A separação por variedade, em vez de um lote único de mistura, reflete a vontade da Cooperativa de valorizar o azeite produzido pelos seus sócios olivicultores. Acreditamos que o azeite merece ser tratado com o mesmo rigor sensorial que o vinho. Cada variedade tem um carácter próprio e é isso que pretendemos mostrar aos consumidores, valorizando a Cobrançosa e a Galega, fundamentais para a olivicultura de Moura e Barrancos”, afirma Helder Transmontano, diretor-geral da Cooperativa.
10 ATUALIDADE MAIS NOTÍCIAS DO SETOR EM: WWW.IALIMENTAR.PT • SUBSCREVA A NOSSA NEWSLETTER Portugal Fresh, COTHN e FNOP exigem 140 milhões de euros para reforçar competitividade dos produtores A Portugal Fresh – Associação para a Promoção das Frutas, Legumes e Flores de Portugal, o Centro Operativo e Tecnológico Hortofrutícola Nacional (COTHN) e a Federação Nacional das Organizações de Produtores de Frutas e Hortícolas (FNOP) denunciam publicamente a perda de competitividade dos produtores portugueses face aos espanhóis: o mercado é o mesmo, os custos também, mas o apoio público é incomparável. Para corrigir esta desigualdade, as três entidades subscrevem a posição da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) e exigem ao Governo um pacote de 140 milhões de euros em apoios diretos aos agricultores. A Portugal Fresh, o COTHN e a FNOP vão também juntar-se à delegação que, no próximo dia 12 de outubro, vai entregar estas reivindicações no Parlamento e na residência oficial do primeiro-ministro. No primeiro semestre de 2026, o défice da balança comercial de frutas, legumes e flores com Espanha agravou-se 20% em valor face ao mesmo período do ano anterior, para 424 milhões de euros. Para a Portugal Fresh, o COTHN e a FNOP, é inaceitável que Portugal não disponibilize apoios diretos robustos aos agricultores de forma a compensar os custos acrescidos dos fatores de produção. Segundo um comunicado conjunto, "o esforço, a produtividade e o investimento dos produtores portugueses não podem continuar a ser anulados pela diferença entre a resposta do Governo português e a dos nossos vizinhos espanhóis". Nutrition from Water selecionada para o programa global Unreasonable Food 2026 A Nutrition from Water, empresa portuguesa que desenvolve proteínas completas a partir de microalgas cultivadas em tanques de fermentação, foi selecionada para integrar a edição de 2026 do Unreasonable Food, programa global desenvolvido pela Mars e pelo Unreasonable Group para apoiar empreendedores que estão a criar soluções inovadoras para transformar os sistemas alimentares tradicionais. Lançada em 2024, a iniciativa anual Unreasonable Food apoia empresas em fase de crescimento que procuram responder a alguns dos principais desafios do setor alimentar, promovendo uma maior sustentabilidade, resiliência e acesso a alimentos nutritivos. A Nutrition from Water desenvolve uma tecnologia assente no cultivo de microalgas para ajudar a responder ao défice global de proteína láctea. Através deste processo, a empresa consegue obter proteína completa a um custo até três vezes inferior ao das alternativas convencionais. “Na Mars, a nossa ambição é criar melhores snacks e contribuir para um planeta melhor. Para isso, é necessário inovar em todo o sistema alimentar, desde o solo até ao snack”, afirma Amanda Davies, responsável pelas áreas de I&D, Comercial e Sustentabilidade da Mars Snacking. “As empresas que integram a edição deste ano do Unreasonable Food apresentam ideias arrojadas e com potencial de crescimento que, acreditamos, podem ajudar a promover avanços na nutrição, na inovação de ingredientes, na segurança alimentar, na circularidade e na resiliência das cadeias de abastecimento.”
12 FÓRUM DEBATE DESAFIOS DA SEGURANÇA ALIMENTAR E ANUNCIA REGRESSO EM 2028 O primeiro Fórum IFS Lisboa 2026 realizado, em Portugal, reuniu vários profissionais do setor alimentar para discutir segurança dos alimentos, certificação e gestão do risco. O controlo de fornecedores, a eficácia dos sistemas HACCP, a fiscalização e as novas exigências regulamentares estiveram entre os temas em destaque. A próxima edição está prevista para 2028. Joana Peres A segurança dos alimentos exige mais do que procedimentos escritos e auditorias periódicas. Depende da capacidade das empresas para identificar riscos, corrigir falhas e garantir que as medidas de controlo funcionam no dia a dia. Esta foi uma das ideias centrais do Fórum IFS Lisboa 2026, que reuniu representantes da indústria, da distribuição, de entidades de certificação e de organismos públicos. O encontro serviu para partilhar experiências e discutir os desafios que se colocam aos diferentes intervenientes da cadeia de abastecimento, num contexto de exigências crescentes em matéria de conformidade, rastreabilidade e proteção do consumidor. Na abertura, Eunice Santos, da ÉS Segurança, destacou a importância de criar oportunidades de partilha entre profissionais. “É essencialmente um dia para partilhar conhecimentos, experiências e diferentes perspetivas sobre o presente e o futuro da segurança alimentar e da certificação”, afirmou. A responsável sublinhou também o papel da certificação na melhoria das práticas das organizações. “Acreditamos que a certificação é um meio de acrescentar valor”, referiu, deixando uma mensagem dirigida aos participantes: "Que levemos connosco as ideias de hoje, para as aplicarmos e melhorarmos as nossas práticas”. João Stein, da IFS – International Featured Standards, colocou a responsabilidade pela segurança dos produtos no centro da discussão. “Estamos aqui para discutir um objetivo comum: a gestão da qualidade, a segurança dos alimentos e a conformidade”, afirmou. O responsável recordou que a segurança dos alimentos continua a enfrentar desafios ao longo da cadeia e destacou a importância da competência técnica dos auditores. A avaliação das empresas, defendeu, deve ser realizada por profissionais especializados nas matérias em análise, preservando a integridade do processo de auditoria.
13 PREVENÇÃO COMEÇA NOS FORNECEDORES A gestão do risco começa antes de os produtos entrarem nas unidades industriais. A seleção de fornecedores, a avaliação das matérias-primas e a prevenção da fraude alimentar são etapas determinantes para evitar problemas que podem comprometer a segurança dos alimentos. Gabriela Pinheiro, da APCER, chamou a atenção para a necessidade de as empresas conhecerem os seus riscos e atuarem sobre as respetivas causas. “Uma empresa realmente preparada é a que reconhece que, de facto, tem riscos, atua sobre as causas e melhora de forma consistente”, afirmou. Eunice Santos, da ÉS Segurança. João Stein, da IFS – International Featured Standards. Da esquerda para a direita: Gabriela Pinheiro, da APCER; João Stein, da IFS – International Featured Standards e Xavier Nascimento, da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV). A eficácia dos sistemas de Análise de Perigos e Controlo de Pontos Críticos (HACCP) foi igualmente abordada. A existência de procedimentos é necessária, mas não garante, por si só, que os perigos estejam controlados. É fundamental verificar se as medidas definidas são adequadas, se são cumpridas pelas equipas e se produzem os resultados esperados. A rotulagem e a gestão de alergénios exigem cuidados específicos. Uma falha na informação disponibilizada ao consumidor ou um episódio de contaminação cruzada pode ter consequências para a saúde, tornando indispensável o controlo das diferentes etapas de produção e acondicionamento. Também a gestão de pragas exige acompanhamento contínuo. Joana Mateus, da Anticimex Portugal, destacou a importância de relacionar as evidências recolhidas com os desvios identificados, as ações executadas e a verificação da sua eficácia. A identificação de uma não conformidade não encerra o processo: é necessário perceber a sua origem, corrigir o problema e confirmar se a solução adotada resultou. A prevenção deve começar ainda na conceção das instalações. Pedro Guerra, da Alicontrol, defendeu uma maior articulação entre as áreas de engenharia e segurança alimentar desde a fase de projeto. “A Engenharia Civil e a Segurança Alimentar têm de se sentar à mesma mesa de projeto para que o resultado seja satisfatório”, afirmou. FISCALIZAÇÃO E CULTURA DE SEGURANÇA A responsabilidade dos operadores e o papel das autoridades competentes estiveram em análise na intervenção de Xavier Nascimento, da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV). Cabe aos operadores do setor alimentar assegurar que os produtos sob a sua responsabilidade cumprem os requisitos de segurança aplicáveis. Às autoridades compete verificar o cumprimento das obrigações legais através dos controlos oficiais e determinar as medidas necessárias perante situações de incumprimento.
14 Na sua intervenção, Xavier Nascimento abordou também a distinção entre alimentos prejudiciais para a saúde e alimentos impróprios para consumo. Quando é identificado um alimento não seguro que já se encontra no mercado, a resposta pode implicar a retirada do produto ou a sua recolha junto dos consumidores, bem como a comunicação às entidades competentes. O responsável salientou que a segurança alimentar não depende apenas das regras estabelecidas, mas também da forma como são aplicadas nas empresas. “A cultura de segurança dos alimentos acaba por ser um resultado de tudo o que acontece no estabelecimento”, afirmou Xavier Nascimento, sublinhando a influência das práticas diárias no funcionamento dos sistemas de controlo. A formação e o envolvimento dos trabalhadores são, neste contexto, elementos essenciais. Ana Machado, da SGS Portugal, resumiu a importância da competência prática numa frase: “Competência é saber fazer”. Também Paulo Gaspar, da BRAINR, destacou a necessidade de envolver cada operador na qualidade dos produtos e nos procedimentos de controlo. A segurança alimentar não deve ser vista como uma responsabilidade exclusiva dos departamentos da qualidade, mas como parte das tarefas de quem intervém nos processos. Susana Castro, da Longa Vida, chamou a atenção para a diferença entre ter um sistema implementado e garantir que este funciona quando é necessário. Construir um sistema é importante, mas garantir que funciona quando é necessário é o que faz a diferença. SUSTENTABILIDADE, EMBALAGENS E NOVAS TECNOLOGIAS O programa incluiu ainda a sustentabilidade, o Regulamento relativo às Embalagens e aos Resíduos de Embalagens (PPWR), a digitalização e a inteligência artificial. Estes temas colocam novas exigências às empresas, que têm de acompanhar a evolução regulamentar e avaliar de que forma as alterações afetam os seus processos. Ana Brandão, da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), destacou a importância da preparação antecipada para responder às obrigações ambientais. A ideia é preparar as empresas desde já para cumprirem as obrigações de forma consistente. A relação entre fornecedores e distribuição também teve lugar na discussão. Sara Bernardes Silva, da Sonae MC, apontou a transparência como um fator importante na construção de relações de confiança entre as empresas. “O que distingue ao dia de hoje um fornecedor de confiança é de facto a transparência que tem com o retalho”, afirmou, salientando a importância de assegurar que as práticas adotadas correspondem às exigências e aos compromissos assumidos. Cristina Câmara, da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED), destacou o contributo da partilha de necessidades e experiências para encontrar respostas aos desafios comuns. “Com esta parDa esquerda para a direita: Joana Mateus, da Anticimex; Ana Brandão, da APA - Agência Portuguesa do Ambiente; Cristina Câmara, da APED - Associação Portuguesa de Empresas de Dsitribuição e Pedro Guerra, da Alicontrol. Da esquerda para a direita: Alexandra Ribeiro, da Jerónimo Martins | Terra Alegre; Sara Bernardes Silva, da SONAE MC; Ana Machado, da SGS Portugal; Deolinda Silva, da PortugalFoods e Paulo Gaspar, da Brainr.
15 tilha de necessidades e experiências conseguimos ir lá”, afirmou. A evolução do setor e as perspetivas económicas também foram abordadas. Deolinda Silva, da PortugalFoods, manifestou a expectativa de que 2026 termine com crescimento positivo. Carolina Azevedo, da CACB, sublinhou, por sua vez, que os sistemas de gestão têm de acompanhar a evolução das exigências e das práticas das empresas. “Isto não é um processo estático. Este não é um processo estático: está em constante evolução, com o objetivo de melhorar continuamente. FÓRUM REGRESSA EM 2028 As intervenções do Fórum IFS Lisboa 2026 colocaram em evidência a necessidade de reforçar a prevenção, melhorar a gestão do risco e garantir que os sistemas de segurança alimentar respondem às situações reais das empresas. A certificação e a conformidade continuam a ser instrumentos importantes, mas a sua eficácia depende da forma como os requisitos são incorporados nas operações, acompanhados pelas equipas e revistos sempre que são identificadas falhas. O Fórum IFS regressará em 2028, dando continuidade à discussão sobre segurança dos alimentos, certificação e gestão da qualidade na cadeia de abastecimento. n Susana Castro, da Longa Vida - Lactalis Nestlé Portugal. Carolina Azevedo, da SGS Portugal. Para mais informações, visite o website: https://forumifslisboa.com/
16 AUTOMATIZAÇÃO E ROBÓTICA NOS MATADOUROS E FÁBRICAS DE PROCESSAMENTO Da linha de produção à fábrica inteligente: a indústria da carne está em transformação A automatização está a ganhar terreno nos matadouros e nas unidades de processamento de carne, da pesagem e etiquetagem à logística e ao controlo de qualidade. O maior desafio está, porém, em robotizar operações que exigem adaptação a produtos irregulares e em integrar os equipamentos numa estrutura digital capaz de melhorar o rendimento, a rastreabilidade e o controlo da produção. Marta Clemente A falta de mão de obra, o investimento necessário e as exigências de segurança alimentar estão a acelerar esta mudança, que também abre novas possibilidades de reduzir desperdícios e melhorar o aproveitamento da matéria-prima. Mas a transformação tecnológica da indústria portuguesa da carne não acontece ao mesmo ritmo em todas as empresas. A dimensão dos estabelecimentos, a capacidade de investimento e o grau de especialização condicionam a adoção de novas soluções, embora a automatização já tenha expressão em várias fases da produção.
17 AUTOMATIZAÇÃO E ROBÓTICA NOS MATADOUROS E FÁBRICAS DE PROCESSAMENTO O desafio passa agora por ultrapassar a utilização de equipamentos isolados e aproveitar a informação que estes podem gerar para melhorar o funcionamento das unidades industriais. Graça Mariano, diretora executiva da Associação Portuguesa dos Industriais de Carnes (APIC), identifica um setor que tem investido em tecnologia para responder a exigências relacionadas com o bem-estar animal, a redução do desperdício, a descarbonização e o cumprimento das obrigações regulamentares. A modernização não se limita, por isso, à substituição do trabalho manual por máquinas; envolve também a capacidade de acompanhar os processos, detetar desvios e tomar decisões com base em dados. A automatização está particularmente presente nas operações repetitivas, como a pesagem, a etiquetagem, o transporte interno, o armazenamento e a paletização. São tarefas em que a repetibilidade permite obter maior consistência e em que os equipamentos automáticos podem reduzir a intervenção humana. A estas soluções juntam-se sistemas digitais de gestão, rastreabilidade e monitorização da produção. A mudança mais significativa está na ligação entre as diferentes etapas. Uma máquina deixa de funcionar apenas como um equipamento autónomo e passa a fornecer informação que pode ser cruzada com a de outros sistemas, permitindo acompanhar a produção e identificar perdas. Como explica Graça Mariano, a evolução tecnológica deverá conduzir a uma “integração crescente dos processos”. UMA FÁBRICA CONECTADA A digitalização permite relacionar a informação recolhida ao longo do processo, desde a entrada da matéria-prima até ao produto acabado e à expedição. Em vez de analisar separadamente o funcionamento de cada máquina, a empresa pode acompanhar indicadores de produção, confrontar o planeamento com os resultados efetivos, identificar paragens e perceber onde se perdem tempo, recursos ou rendimento. A transformação digital não se resume à instalação de equipamentos modernos. Exige uma arquitetura digital integrada, que permita fazer circular a informação entre as diferentes áreas da empresa e apoiar as decisões operacionais e de gestão. A APIC considera que esta será uma das prioridades dos próximos anos. CORTE E DESMANCHA: A DIFICULDADE DE ROBOTIZAR O IMPREVISÍVEL Nem todas as operações de preparação da carne oferecem condições favoráveis à automatização: o corte, a desmancha, a manipulação e a classificação colocam dificuldades acrescidas, porque a matéria-prima não apresenta características uniformes. O peso, a dimensão, a forma e a composição das peças variam, o que obriga os equipamentos a adaptar a sua atuação a cada produto. Uma máquina programada para executar sempre o mesmo movimento pode revelar limitações quando tem de reconhecer diferentes geometrias e atuar de forma casuística. Graça Mariano considera que esta variabilidade representa uma das principais fronteiras tecnológicas do setor. A evolução dependerá da capacidade de combinar robótica, visão artificial, inteligência artificial (IA) e sensores para desenvolver equipamentos que interpretem as características reais da carne antes de executar uma operação: “O objetivo não será simplesmente instalar mais robôs, mas desenvolver máquinas capazes de tomar decisões em função das características reais do produto”, sublinha a diretora executiva da APIC. É também neste domínio que o TECMEAT - Centro de Competências do Agroalimentar para o Setor das Carnes identifica oportunidades para a investigação e o desenvolvimento tecnológico. Segundo Dora Gaspar, diretora-geral do TECMEAT, as operaCréditos: TECMEAT.
18 AUTOMATIZAÇÃO E ROBÓTICA NOS MATADOUROS E FÁBRICAS DE PROCESSAMENTO ções com maior desgaste físico estão entre as que apresentam maior potencial para a introdução de robótica. A lista engloba o abate, a pesagem, a identificação e a classificação, o corte primário, a desmancha, o fatiamento, o posicionamento, o embalamento, a rotulagem e a logística. A responsável destaca ainda a robótica colaborativa (cobots), que “permitirá avanços de eficiência sem grandes alterações das linhas produtivas existentes”. VISÃO ARTIFICIAL E INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NO CONTROLO DA QUALIDADE Em vez de depender exclusivamente da observação humana, determinados controlos, nomeadamente a inspeção e a classificação dos produtos, podem ser realizados com recurso a câmaras, sensores e algoritmos que recolhem e analisam informação de forma sistemática, segundo critérios consistentes. Dora Gaspar lembra a classificação de carcaças como um exemplo de aplicação da visão computacional tridimensional. Estes sistemas analisam o perfil da carcaça e estimam a proporção de carne magra e gordura, procurando tornar a avaliação mais objetiva e precisa. A diretora- -geral do TECMEAT ressalva, contudo, que a heterogeneidade dos produtos representa um desafio para a obtenção de resultados fiáveis. A este propósito, explica que a tecnologia permite “substituir a avaliação visual humana por sistemas de visão computacional 3D que analisam instantaneamente o perfil da carcaça, determinando o rendimento de carne magra e gordura com total isenção e precisão”. Outra área em desenvolvimento é a otimização do corte. Com recurso a câmaras associadas aos equipamentos, os sistemas de inteligência artificial podem analisar a geometria de uma peça e calcular como dividi-la para melhorar o aproveitamento da matéria-prima. O propósito é reduzir a quantidade de carne que fica por recuperar, designadamente junto ao osso, devido à imprecisão dos cortes manuais. A manutenção preditiva constitui outra possibilidade. A análise de dados sobre o funcionamento dos equipamentos pode ajudar a identificar sinais de anomalia e antecipar intervenções, reduzindo o risco de avarias e de paragens inesperadas. O benefício depende, no entanto, da qualidade da informação recolhida e da capacidade de a converter em decisões úteis para a operação. MAIS RENDIMENTO, MENOS DESPERDÍCIO A eficiência produtiva é um dos principais argumentos a favor da automatização, mas os ganhos não se resumem à velocidade de execução. O controlo digital dos stocks, a melhoria do rendimento das carcaças,
19 AUTOMATIZAÇÃO E ROBÓTICA NOS MATADOUROS E FÁBRICAS DE PROCESSAMENTO a redução de erros e um planeamento mais rigoroso podem contribuir para diminuir perdas ao longo da cadeia de produção. Dora Gaspar aponta ainda a possibilidade de manter “a continuidade operacional das linhas automáticas com cadência constante (24/7), eliminando estrangulamentos por fadiga humana”. A redução da dependência de mão de obra especializada em tarefas de menor valor acrescentado pode também diminuir os custos operacionais e alguns riscos de acidentes de trabalho. Estes benefícios não devem, porém, ser confundidos com resultados garantidos, já que a dimensão dos ganhos vai depender do processo automatizado, das condições de funcionamento e da forma como a tecnologia é integrada na unidade industrial. Como observa a diretora-geral do TECMEAT “o desenvolvimento industrial e experimental de projetos piloto pode demonstrar os impactos obtidos nos diferentes níveis de intervenção”. A realização de testes em contexto industrial é, assim, importante para avaliar os resultados efetivos de cada solução. A gestão da energia e da água também pode melhorar o desempenho industrial. Acompanhar os consumos ajuda a detetar desperdícios e a ajustar o funcionamento dos equipamentos. Já o aproveitamento de coprodutos, subprodutos e outros recursos que seriam descartados permite reduzir perdas e dar-lhes uma nova utilização, em linha com os princípios da economia circular. SEGURANÇA ALIMENTAR E RASTREABILIDADE AO LONGO DA CADEIA A segurança alimentar e a capacidade de reconstituir o percurso dos produtos são requisitos centrais da indústria da carne, tanto para o cumprimento das obrigações regulamentares como para a resposta a incidentes. A digitalização permite ligar informação relativa à receção da matéria-prima, aos lotes, às operações de transformação, aos controlos de qualidade e à expedição. Quando os sistemas estão devidamente integrados, torna-se mais fácil consultar os registos, bem como acompanhar os produtos e identificar os pontos da cadeia envolvidos numa ocorrência. Dora Gaspar aponta a tecnologia blockchain como uma das soluções que podem reforçar a rastreabilidade, considerando-a “um fator-chave para a confiança e transparência na cadeia de abastecimento”. A sua utilidade está associada à fiabilidade dos registos e à possibilidade de localizar os produtos afetados por um problema, facilitando uma eventual retirada do mercado. A automatização pode também contribuir para reduzir o contacto direto entre os trabalhadores e a carne em determinadas operações, restringindo eventuais contaminações cruzadas. A este nível, a robótica complementa, mas não substitui, os procedimentos de higiene, a limpeza dos equipamentos e os restantes controlos de segurança alimentar. A automatização da monitorização da cadeia de frio permite detetar alterações nas condições de conservação que possam afetar a qualidade e a segurança dos produtos. Dora Gaspar salienta ainda os modelos microbiológicos preditivos e a melhoria dos processos de corte e aproveitamento da matéria-prima como formas de reduzir o desperdício alimentar. INVESTIMENTO, INTEGRAÇÃO E COMPETÊNCIAS CONDICIONAM A ADOÇÃO A existência de soluções tecnológicas disponíveis não significa, porém, que todas as empresas tenham condições para as implementar. Além do investimento inicial, é necessário afetar recursos a outras etapas, como a integração tecnológica, a adaptação dos processos, a formação dos trabalhadores, a manutenção e a reorganização das operações. Esta questão assume particular relevância para as pequenas e médias empresas, que podem dispor de menos recursos. A APIC considera, pois, necessário criar condições para que a inovação seja acessível a empresas de diferentes dimensões, incluindo através de apoio ao investimento, à formação e à integração tecnológica. Outro obstáculo reside na compatibilidade entre equipamentos e sistemas adquiridos em momentos diferentes. Máquinas que utilizam protocolos de comunicação distintos podem dificultar a circulação da informação, limitando o potencial das soluções instaladas. A qualidade dos dados é igualmente determinante para a aplicação da inteligência artificial. A informação tem de ser suficiente, fiável e corretamente estruturada para que os algoritmos produzam resultados consistentes. A decisão de investir deve ainda ser acompanhada por uma avaliação dos benefícios concretos: redução de desperdício, diminuição de custos, maior segurança ou capacidade de resposta. Quanto à escassez de mão de obra, a automatização pode ajudar a responder à dificuldade em preencher determinadas funções, sobretudo quando envolvem esforço físico, movimentos repetitivos ou condições exigentes. Isso não significa que a robotização tenha apenas como consequência a substituição de trabalhadores por máquinas. A alteração das tarefas tende a aumentar a necessidade de profissionais capazes de operar, programar, supervisionar e manter equipamentos automáticos, bem como de interpretar os dados gerados pelos sistemas
20 AUTOMATIZAÇÃO E ROBÓTICA NOS MATADOUROS E FÁBRICAS DE PROCESSAMENTO digitais. A formação e a requalificação profissional tornam-se, por isso, parte do próprio processo de modernização, já que é essencial ter trabalhadores preparados para os utilizar e resolver problemas operacionais. Graça Mariano defende que a transformação tecnológica deve ser acompanhada por formação e requalificação profissional: “A modernização terá de conjugar a introdução de novos equipamentos com a valorização do conhecimento dos profissionais e a adaptação das funções às novas exigências”. O QUE VAI MARCAR OS PRÓXIMOS ANOS A digitalização deve ganhar espaço na indústria da carne, através de ferramentas de apoio à decisão e de sistemas digitais de planeamento e controlo. Os gémeos digitais (digital twins), que permitem simular linhas de produção em ambiente virtual, poderão ajudar a testar alterações e a avaliar os seus efeitos antes de avançar com mudanças nas instalações. Dora Gaspar, diretora-geral do TECMEAT, identifica várias tecnologias com potencial para transformar o setor, entre as quais a inteligência artificial, a rastreabilidade digital, a robótica colaborativa e a Internet das Coisas. A responsável destaca também os desafios associados ao abastecimento alimentar e à gestão dos recursos: “disponibilizar alimento às pessoas é o maior desafio com o qual se depara a indústria da carne”. A evolução tecnológica deverá passar tanto pela adoção de novas ferramentas como pelo aperfeiçoamento das soluções existentes. Dora Gaspar espera que “o setor cárneo seja fortemente influenciado pelas tecnologias emergentes e pela consolidação de soluções já disponíveis”. A redução do impacto ambiental constitui outra prioridade. O TECMEAT destaca o aproveitamento de coproPROJETOS PORTUGUESES MOSTRAM DIFERENTES ETAPAS DA TRANSFORMAÇÃO A modernização da indústria da carne em Portugal já se traduz em projetos de digitalização e automatização. A Avisabor implementou o sistema da BrainR em quatro meses, entre novembro de 2020 e março de 2021. Segundo a fornecedora, a integração dos dados de produção, planeamento e stocks reduziu em 50% o tempo médio de armazenamento. A solução passou a abranger áreas como o abate, a desossa, a embalagem, a expedição e o controlo de qualidade, centralizando a informação e permitindo acompanhar os processos em tempo real. Na Maporal, em Reguengos de Monsaraz, o projeto de ampliação do matadouro incluiu a previsão de robótica na desmancha e de linhas automáticas. A Avipronto está também a desenvolver o projeto Smart Flow&Pack, que prevê uma nova linha de abate com capacidade para 15 mil frangos por hora e uma linha de corte e desmancha totalmente automatizada. O investimento global anunciado ronda os 25 milhões de euros e inclui tecnologias de visão artificial e robotização. De acordo com a ficha do projeto no portal da transparência do PRR, a execução está prevista entre junho de 2026 e maio de 2028. dutos e subprodutos, a diminuição do recurso a materiais de origem fóssil e o prolongamento da conservação dos alimentos. Neste âmbito, a responsável salienta que “o desafio passa por encontrar soluções que protejam os produtos sem aumentar a pegada ambiental”. Para a APIC, a concretização dos benefícios da automatização depende não só dos equipamentos instalados, mas também da integração dos processos, da qualidade dos dados e da avaliação dos resultados. Como sublinha a associação, a mudança exige “trabalho técnico, adaptação organizacional e profissionais capazes de operar num ambiente em que as decisões de produção dependem cada vez mais da informação digital”. n Créditos: Tecmeat. A mudança mais significativa está na ligação entre as diferentes etapas
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22 TRANSFORMAÇÃO DIGITAL NA INDÚSTRIA DO TOMATE: UMA EVOLUÇÃO CAMPANHA APÓS CAMPANHA Transformação digital na indústria do tomate: uma evolução campanha após campanha Na indústria do tomate, há uma particularidade que torna a transformação digital especialmente desafiante: a campanha é sazonal, mas a operação não espera. Há processos que evoluem, tecnologias que surgem, novas necessidades que se tornam críticas e, sobretudo, pessoas que continuam a questionar a forma como trabalham. Na indústria do tomate, esta realidade é particularmente evidente. Paula Ferreira, IT Senior Consultant no Departamento de Engenharia e Inovação da Cachapuz Há mais de três décadas que a Cachapuz trabalha, lado a lado, com empresas deste setor, acompanhando campanhas, desafios e mudanças tecnológicas. É uma relação que ultrapassa a implementação de uma solução tecnológica: é um processo de cocriação contínua, em que o conhecimento da indústria se cruza com a experiência da Cachapuz em pesagem, software e automação industrial. A campanha do tomate é sazonal, mas a transformação que a suporta não é. Durante alguns meses, a operação decorre 24 horas por dia, sete dias por semana, exigindo rapidez, controlo e uma elevada disponibi-
23 TRANSFORMAÇÃO DIGITAL NA INDÚSTRIA DO TOMATE: UMA EVOLUÇÃO CAMPANHA APÓS CAMPANHA lidade dos sistemas. Uma paragem pode ter impacto direto na receção, nos tempos de espera e na capacidade de resposta da indústria. Neste contexto, a tecnologia tem de estar ao serviço da operação e, acima de tudo, das pessoas que tomam decisões. Um dado só tem verdadeiro valor quando chega à pessoa certa, no momento certo e com a informação necessária para agir. Foi esta visão que esteve na evolução do SLV Tomato, uma solução da Cachapuz que integra pesagem, software, automação e sistemas de gestão, combinando componentes locais com serviços na cloud. Mais do que digitalizar tarefas, trata-se de criar um ecossistema em que a informação acompanha o percurso da operação e é disponibilizada de acordo com a responsabilidade de cada interveniente. Uma entrega de tomate é um bom exemplo. A previsão de chegada permite preparar a receção e os recursos necessários. A pesagem e a classificação suportam a valorização da matéria-prima. A informação recolhida alimenta os sistemas de gestão e é disponibilizada aos diferentes parceiros. Relatórios e indicadores permitem acompanhar a operação, analisar tempos de ciclo e identificar oportunidades de melhoria. A automação reduz tarefas repetitivas e a possibilidade de erro, libertando as equipas para decisões que exigem experiência e conhecimento. Mas há outra dimensão que considero particularmente importante: a próxima campanha começa antes de terminar a atual. É durante uma campanha que se identificam ocorrências, se analisam dados, se reveem regras e se percebem novas necessidades. Depois, há um novo ciclo de configuração, manutenção, testes e preparação. É neste trabalho contínuo que a experiência acumulada se transforma em inovação. Enquanto IT Senior Consultant, vejo esta evolução não apenas como uma questão tecnológica, mas como um exercício permanente de proximidade e compreensão do negócio. A nossa função passa por perceber onde estão os pontos de decisão, como circula a informação e de que forma podemos tornar os processos mais simples, rápidos e controlados. A indústria detém o conhecimento da operação e a tecnologia ajuda a transformá-lo em novas possibilidades. Paula Ferreira, IT Senior Consultant no Departamento de Engenharia e Inovação da Cachapuz. Para mais informações, visite o website da Cachapuz www.cachapuz.com É também por isso que falar hoje de transformação digital significa já pensar no que vem a seguir. Dispositivos inteligentes, mobilidade, IoT, cloud e inteligência artificial podem ampliar a capacidade de recolher, relacionar e interpretar informação. Mas a tecnologia só fará sentido se responder a problemas concretos e produzir informação útil para quem decide. Há três décadas, a pergunta poderia ser como registar e documentar cada entrega. Hoje, é cada vez mais como antecipar a próxima decisão. Esta mudança diz muito sobre o caminho percorrido e demonstra que a transformação digital não acontece numa época específica, nem termina quando uma nova solução entra em produção. Constrói-se campanha após campanha, decisão após decisão, em parceria com quem conhece verdadeiramente a operação. É assim que continuamos a fazer evoluir o SLV Tomato e, com ele, a capacidade da indústria para enfrentar cada nova campanha. A indústria traz o conhecimento profundo da campanha, a iniciativa e a ambição de evoluir, e a Cachapuz contribui e converte essa visão em soluções integradas e produtivas para o negócio. n
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