61 PROTEÍNAS ALTERNATIVAS se trata necessariamente de substituir os alimentos de origem animal. O grande objetivo passa por incorporar nas nossas dietas uma maior diversidade de fontes proteicas. Desta forma, promove-se uma alimentação mais variada, aumenta-se a resiliência dos sistemas alimentares e responde-se às necessidades de consumidores com diferentes preferências, estilos de vida e preocupações ambientais. Nos últimos anos, assistiu-se a um crescimento significativo da investigação em áreas tão diversas como as proteínas vegetais, nomeadamente provenientes de leguminosas, as microalgas e macroalgas, os fungos, a fermentação de precisão, a agricultura celular, os insetos e a valorização de subprodutos agroalimentares como fonte de ingredientes de elevado valor nutricional. Estas abordagens procuram combinar sustentabilidade, qualidade nutricional e viabilidade económica, contribuindo para a construção de sistemas alimentares mais eficientes e circulares, alinhadas com o conceito de “uma só saúde”: reconhece-se que a saúde humana, animal e ambiental estão interligadas e devem ser abordadas de forma integrada. Portugal reúne condições particularmente favoráveis para assumir um papel relevante nesta transformação. A forte tradição agroalimentar, a extensa zona costeira, a riqueza de recursos marinhos e a crescente capacidade científica e tecnológica das suas instituições de investigação constituem ativos importantes para o desenvolvimento de novos ingredientes e alimentos ricos em proteína. Nos últimos anos foram desenvolvidos diversos projetos nacionais neste domínio, incluindo projetos mobilizadores e agendas mobilizadoras do PRR, como o Pacto para a Bioeconomia Azul e o VIIAFOOD, onde se exploraram soluções de mercado com novas proteínas. Estas iniciativas constituíram oportunidades de excelência para responder a desafios concretos lançados pelas empresas e desenvolver soluções inovadoras para o setor alimentar. Foram criados modelos de co-inovação que, para além de gerarem novo conhecimento, deram origem a casos reais de transferência de tecnologia para as empresas, alguns dos quais já se materializaram em produtos disponíveis no mercado. Trata-se de uma demonstração clara de que é possível gerar valor a partir do conhecimento e contribuir para o crescimento da economia nacional. Recorde-se que o setor alimentar português já ultrapassou os 10 mil milhões de euros em exportações e que o prestígio das nossas empresas tem vindo a ser reforçado através da sua crescente aposta na inovação. Hoje, inovar já não é uma opção. É uma condição de sobrevivência num mercado cada vez mais competitivo e incerto, onde a capacidade de adaptação e a resiliência são fatores estratégicos. Esta visão alinha-se claramente com a nova estratégia europeia Food 2040, que identifica a diversificação das fontes proteicas como um vetor estratégico para aumentar a resiliência dos sistemas alimentares, reduzir dependências externas e reforçar a autonomia estratégica da União Europeia. O documento reconhece ainda o papel central da biotecnologia, da fermentação avançada, das algas, da digitalização e da transferência de conhecimento para o mercado na construção de sistemas alimentares mais competitivos, sustentáveis e preparados para responder aos desafios futuros. Neste contexto, a inovação em proteínas alternativas deixa de ser apenas uma oportunidade tecnológica e passa a constituir uma prioridade estratégica para a Europa e para Portugal. Entre as diferentes alternativas proteicas, merece particular destaque o caso das leguminosas. Ao contrário de muitas das fontes anteriormente referidas, as leguminosas fazem parte integrante da Dieta Mediterrânica, reconhecida pelos seus benefícios para a saúde e sustentabilidade. Feijão, grão-de-bico, ervilhas, favas e chícharo constituem fontes proteicas bem conhecidas dos consumidores e apresentam uma elevada aceitação sensorial. Apesar disso, os níveis de consumo de leguminosas na população portuguesa continuam abaixo das recomendações nutricionais. Neste contexto, torna-se particularmente relevante promover a produção e utilização de espécies adaptadas às condições edafoclimáticas nacionais e europeias, contribuindo simultaneamente para a redução da dependência de proteínas importadas. Entre as culturas que têm despertado crescente interesse científico destacam-se o chícharo ( Lathyrus sativus), uma espécie tradicional com elevado potencial de valorização alimentar, e
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