BF22 - iAlimentar

64 PROTEÍNAS ALTERNATIVAS Muito embora já exista uma grande diversidade de alternativas proteicas, a sua adoção generalizada enfrenta ainda desafios significativos. O primeiro está relacionado com a aceitação por parte dos consumidores. A neofobia alimentar continua a constituir uma barreira relevante, particularmente perante ingredientes ou tecnologias pouco familiares. O segundo desafio prende-se com a competitividade económica, uma vez que muitas destas alternativas ainda apresentam custos superiores aos das proteínas convencionais. Em terceiro lugar, importa garantir a sua disponibilidade para produções industriais, o que exige o envolvimento coordenado da indústria alimentar, da distribuição e de estratégias de comunicação adequadas. Acrescem ainda os desafios regulatórios. A aprovação de novos ingredientes no âmbito do regulamento europeu dos Novel Foods continua a ser um processo moroso e dispendioso, frequentemente incompatível com o ritmo da inovação científica e tecnológica. Este facto é particularmente evidente no caso de diversas espécies de microalgas e insetos, bem como de novos ingredientes resultantes da fermentação de precisão ou da agricultura celular. Como referi, num contexto em que se prevê um aumento da pressão sobre as fontes proteicas disponíveis, todas as proteínas têm potencial para contribuir para sistemas alimentares mais resilientes. Contudo, para que tal aconteça, será necessário ultrapassar barreiras sensoriais e culturais. A literacia alimentar, acompanhada de experiências positivas de consumo, terá um papel determinante neste processo. As crianças podem assumir um papel difusor particularmente importante, uma vez que tendem a estar mais disponíveis para experimentar novos alimentos e acabam frequentemente por influenciar os hábitos alimentares das próprias famílias. Mais do que uma tendência passageira ou uma moda, as proteínas alternativas representam uma oportunidade única para repensar a forma como produzimos, transformamos e consumimos alimentos. Mais do que substituir modelos existentes, importa complementar e diversificar as fontes proteicas disponíveis, tornando os sistemas alimentares mais resilientes, sustentáveis e capazes de responder às necessidades de uma população em crescimento. Portugal reúne condições excecionais para liderar parte desta transformação. Dispomos de conhecimento científico reconhecido internacionalmente, de empresas inovadoras, de recursos biológicos diversificados e de uma crescente capacidade de transferência de tecnologia para o mercado, ainda que essa etapa careça de uma aceleração substancial. Os próximos passos deverão centrar-se no reforço da literacia dos consumidores, criando condições para uma inovação mais ágil e promover um ambiente regulatório favorável ao desenvolvimento de novos produtos. Se conseguirmos aproximar ciência, indústria e sociedade, estaremos não apenas a preparar o futuro da alimentação, mas também a criar riqueza, emprego qualificado e maior autonomia estratégica para o país. Alimentar Portugal nas próximas décadas exigirá inovação, ambição e a coragem de explorar novas soluções. As proteínas alternativas serão, certamente, uma parte importante dessa resposta. n ANABELA RAYMUNDO Licenciada em Engenharia Química, Mestre em Ciência e Tecnologia de Alimentos e Doutora em Engenharia Agroindustrial, com Agregação na mesma área. É docente do Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa, coordenadora do Mestrado em Engenharia Alimentar e membro integrado do LEAF e do Laboratório Associado TERRA. Desenvolve investigação nas áreas da inovação alimentar e valorização de recursos alternativos e sustentáveis, incluindo microalgas, macroalgas, insetos, produtos de agricultura celular e subprodutos da indústria alimentar. Coordena projetos nacionais e internacionais em colaboração com empresas. Orienta teses de mestrado e doutoramento. Integra o Conselho de Administração da Portugal Foods, o Conselho Nacional para a Ciência, Tecnologia e Inovação e o Conselho Geral da Universidade de Lisboa.

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