17 AUTOMATIZAÇÃO E ROBÓTICA NOS MATADOUROS E FÁBRICAS DE PROCESSAMENTO O desafio passa agora por ultrapassar a utilização de equipamentos isolados e aproveitar a informação que estes podem gerar para melhorar o funcionamento das unidades industriais. Graça Mariano, diretora executiva da Associação Portuguesa dos Industriais de Carnes (APIC), identifica um setor que tem investido em tecnologia para responder a exigências relacionadas com o bem-estar animal, a redução do desperdício, a descarbonização e o cumprimento das obrigações regulamentares. A modernização não se limita, por isso, à substituição do trabalho manual por máquinas; envolve também a capacidade de acompanhar os processos, detetar desvios e tomar decisões com base em dados. A automatização está particularmente presente nas operações repetitivas, como a pesagem, a etiquetagem, o transporte interno, o armazenamento e a paletização. São tarefas em que a repetibilidade permite obter maior consistência e em que os equipamentos automáticos podem reduzir a intervenção humana. A estas soluções juntam-se sistemas digitais de gestão, rastreabilidade e monitorização da produção. A mudança mais significativa está na ligação entre as diferentes etapas. Uma máquina deixa de funcionar apenas como um equipamento autónomo e passa a fornecer informação que pode ser cruzada com a de outros sistemas, permitindo acompanhar a produção e identificar perdas. Como explica Graça Mariano, a evolução tecnológica deverá conduzir a uma “integração crescente dos processos”. UMA FÁBRICA CONECTADA A digitalização permite relacionar a informação recolhida ao longo do processo, desde a entrada da matéria-prima até ao produto acabado e à expedição. Em vez de analisar separadamente o funcionamento de cada máquina, a empresa pode acompanhar indicadores de produção, confrontar o planeamento com os resultados efetivos, identificar paragens e perceber onde se perdem tempo, recursos ou rendimento. A transformação digital não se resume à instalação de equipamentos modernos. Exige uma arquitetura digital integrada, que permita fazer circular a informação entre as diferentes áreas da empresa e apoiar as decisões operacionais e de gestão. A APIC considera que esta será uma das prioridades dos próximos anos. CORTE E DESMANCHA: A DIFICULDADE DE ROBOTIZAR O IMPREVISÍVEL Nem todas as operações de preparação da carne oferecem condições favoráveis à automatização: o corte, a desmancha, a manipulação e a classificação colocam dificuldades acrescidas, porque a matéria-prima não apresenta características uniformes. O peso, a dimensão, a forma e a composição das peças variam, o que obriga os equipamentos a adaptar a sua atuação a cada produto. Uma máquina programada para executar sempre o mesmo movimento pode revelar limitações quando tem de reconhecer diferentes geometrias e atuar de forma casuística. Graça Mariano considera que esta variabilidade representa uma das principais fronteiras tecnológicas do setor. A evolução dependerá da capacidade de combinar robótica, visão artificial, inteligência artificial (IA) e sensores para desenvolver equipamentos que interpretem as características reais da carne antes de executar uma operação: “O objetivo não será simplesmente instalar mais robôs, mas desenvolver máquinas capazes de tomar decisões em função das características reais do produto”, sublinha a diretora executiva da APIC. É também neste domínio que o TECMEAT - Centro de Competências do Agroalimentar para o Setor das Carnes identifica oportunidades para a investigação e o desenvolvimento tecnológico. Segundo Dora Gaspar, diretora-geral do TECMEAT, as operaCréditos: TECMEAT.
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