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Apresentada no VIII Colóquio Hortofrutícola, a iniciativa pretende melhorar o desempenho ambiental das explorações e reforçar a competitividade do setor

Lusomorango aposta num plano ambiental para preparar os produtores para os desafios do futuro

21/07/2026

O Plano de Gestão Ambiental da Lusomorango, apresentado no VIII Colóquio Hortofrutícola, pretende melhorar o desempenho ambiental das explorações e reforçar a competitividade do setor

O VIII Colóquio Hortofrutícola, integrado na programação da Feira das Atividades Culturais e Económicas do Concelho de Odemira (FACECO) e promovido pela Lusomorango – Organização de Produtores de Pequenos Frutos, em associação com a Universidade Católica Portuguesa, teve como tema ‘Reconstruir, Produzir, Crescer: Ambição e Sustentabilidade’.

Loic de Oliveira, presidente da Lusomorango
Loic de Oliveira, presidente da Lusomorango.

O VIII Colóquio Hortofrutícola reuniu representantes do Governo, autarquia, academia, empresas, organizações do setor e produtores de pequenos frutos para debater os principais desafios da agricultura portuguesa, desde a gestão da água e adaptação às alterações climáticas até à competitividade, inovação e políticas públicas necessárias para suportar o crescimento do setor. O encontro foi marcado pela apresentação do Plano de Gestão Ambiental da Lusomorango, desenvolvido no âmbito do seu recentemente aprovado Programa Operacional 2026-2028.

Na abertura do Colóquio, o presidente da Lusomorango, Loic de Oliveira, afirmou que a agricultura portuguesa enfrenta desafios cada vez mais complexos, exigindo uma resposta conjunta dos produtores, Estado e União Europeia: “o Plano de Gestão Ambiental da Lusomorango é mais uma resposta à necessidade de preservação da biodiversidade, sustentabilidade e aumento da resiliência da atividade”. Sublinhando que os agricultores continuam a investir em conhecimento, tecnologia e prevenção do risco, mas que existem desafios que não podem ser ultrapassados apenas pelo setor produtivo, o responsável defendeu que "precisamos de políticas públicas que promovam a gestão do risco. Precisamos de rever o sistema de seguros agrícolas. Precisamos de instrumentos que sejam financeiramente acessíveis e que respondam à realidade das produções agrícolas”, lamentando que os apoios se tenham revelado “insuficientes, tardios e, em muitos casos, inexistentes para responder à dimensão das perdas“provocadas pelas intempéries de 2025 e 2026".

Loic de Oliveira identificou três constrangimentos que condicionam o crescimento da fileira: "água, burocracia e pessoas”. É preciso concretizar a Estratégia ‘Água que Une', modernizar o Perímetro de Rega do Mira e garantir as interligações hídricas previstas para reforçar o abastecimento do Sudoeste Alentejano, afirmou. "Sem água não existe agricultura. E sem agricultura não existe território”. O presidente da Lusomorango apelou, pois, a uma administração pública mais célere, capaz de responder aos investimentos do setor. E também a políticas que garantam habitação, saúde, educação e a integração das pessoas que escolhem Portugal para viver e trabalhar.

Recordando os resultados do estudo apresentado na Feira Nacional de Agricultura pela EY-Parthenon sobre o impacto económico da fileira, destacou que, em 2025, os pequenos frutos geraram 1.037 milhões de euros de Valor Acrescentado Bruto, 398 milhões de euros em exportações, mais de 34 mil postos de trabalho e 276 milhões de euros em receita fiscal: “na Lusomorango acreditamos profundamente que é possível produzir mais e melhor – com menos recursos, com mais conhecimento, e com maior respeito pelo ambiente”.

Bruno Caldeira, diretor de Desenvolvimento de Negócio da Consulai
Bruno Caldeira, diretor de Desenvolvimento de Negócio da Consulai.

Plano de Gestão Ambiental pretende posicionar Lusomorango como referência europeia em sustentabilidade

O momento central do VIII Colóquio Hortofrutícola foi a apresentação do Plano de Gestão Ambiental da Lusomorango, um projeto estruturante desenvolvido no âmbito do Programa Operacional 2026-2028, que pretende apoiar os produtores associados na adaptação às crescentes exigências ambientais, regulamentares e de mercado. O plano surge como resposta aos principais desafios que hoje se colocam ao setor dos pequenos frutos, entre os quais a escassez de água, as alterações climáticas, a redução do uso de fitofármacos, a economia circular, a redução das emissões de gases com efeito de estufa e a necessidade de responder às exigências de clientes, consumidores e regulamentação europeia.

Na apresentação do Plano, Bruno Caldeira, diretor de Desenvolvimento de Negócio da Consulai, explicou que o objetivo passa por disponibilizar aos produtores ferramentas que lhes permitam medir, conhecer e melhorar continuamente o seu desempenho ambiental: “o plano nasce para ajudar os produtores a prepararem-se para uma realidade em que há mais conhecimento e mais medição daquilo que é produzido, mas também para identificar oportunidades de melhoria e de transformação”. O projeto prevê a avaliação integrada da pegada de carbono (ISO 14067), da pegada hídrica (ISO 14046) e da pegada ecológica, permitindo construir uma visão abrangente do desempenho ambiental das produções agrícolas.

Entre os objetivos definidos encontram-se a redução das emissões associadas à produção e logística, a melhoria da eficiência hídrica, a redução da utilização de fitofármacos e fertilizantes, o reforço da resiliência das culturas às alterações climáticas, a promoção da biodiversidade, o incentivo à economia circular e a preparação da Lusomorango para alcançar certificações ambientais internacionalmente reconhecidas. O plano prevê ainda a criação de um Índice de Sustentabilidade, que permitirá consolidar indicadores ambientais, sociais e económicos, funcionando como instrumento de acompanhamento e melhoria contínua.

Bruno Caldeira sublinhou a dimensão coletiva da iniciativa: ”muitos associados sabem o que é um plano de gestão, pois têm um. Aqui, o desafio é ser conjunto", acrescentando que a grande quantidade de informação produzida será trabalhada e partilhada com produtores e outras entidades que necessitam dela, criando uma importante economia de escala.

Conhecimento, financiamento e mercado caminham juntos

A apresentação do Plano de Gestão Ambiental foi seguida de uma mesa-redonda que trouxe a debate Filipa Saldanha, diretora do Departamento de Sustentabilidade da Caixa Crédito Agrícola, e Eduardo Bremm, diretor de Operações Ibéria da Driscoll's. Filipa Saldanha explicou que o financiamento sustentável permite responder simultaneamente à redução do risco, à transição para modelos produtivos mais inovadores e à criação de novas oportunidades de financiamento. Eduardo Bremm recordou que as exigências dos consumidores e dos retalhistas são hoje significativamente superiores, tornando a sustentabilidade um fator de competitividade: “os consumidores estão mais exigentes e os retalhistas enfrentam metas apertadas de redução da pegada ecológica”. E deixou uma mensagem clara: “sem certificações simplesmente não é possível”.

Governo reforça compromisso com água, sustentabilidade e competitividade

Na mensagem por vídeo dirigida ao Colóquio, o ministro da Agricultura e Mar, José Manuel Fernandes, destacou a evolução da fileira dos pequenos frutos na última década, recordando que a produção nacional triplicou entre 2015 e 2025, atingindo 91,4 mil toneladas. O ministro referiu que o setor gerou, em 2025, mais de mil milhões de euros de Valor Acrescentado Bruto, sustenta mais de 34 mil empregos e representa quase 400 milhões de euros de exportações, prevendo-se que o impacto económico ultrapasse os 1.400 mihões de euros em 2026: “o futuro da nossa agricultura passa, precisamente, por fileiras de elevado valor acrescentado, como a dos pequenos frutos, capazes de conciliar competitividade económica, responsabilidade ambiental e desenvolvimento regional”. Destacou ainda a Estratégia Nacional ‘Água que Une’, a modernização dos aproveitamentos hidroagrícolas, a gestão sustentável da água no Mira e os apoios disponibilizados para responder aos prejuízos provocados pelos fenómenos meteorológicos extremos.

Já a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, também por vídeo, enalteceu o percurso da fileira dos pequenos frutos, salientando que o crescimento deve ser acompanhado por uma crescente preocupação com a sustentabilidade. A governante destacou os avanços alcançados ao nível da eficiência hídrica e referiu que a Estratégia Nacional 'Água que Une' assenta em três princípios fundamentais: reduzir, reutilizar e combater o desperdício de água.

Recordou ainda que o Centro de Investigação para a Sustentabilidade, em Odemira, criado em 2023 numa parceria entre a Lusomorango, o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV), a Driscoll’s e a Maravilha Farms, tem produzido resultados promissores na eficiência hídrica da cultura da framboesa, defendendo que o desenvolvimento do setor deve assentar na conjugação entre crescimento económico e sustentabilidade ambiental.

Álvaro Mendonça e Moura, presidente da CAP - Confederação dos Agricultores de Portugal
Álvaro Mendonça e Moura, presidente da CAP - Confederação dos Agricultores de Portugal.

Água, território e políticas públicas marcaram os debates

Ao longo da manhã, os diferentes painéis e intervenções reforçaram a necessidade de criar condições para que o setor continue a crescer de forma sustentável.

O presidente da Câmara Municipal de Odemira, Hélder Guerreiro, defendeu que a revisão das estimativas populacionais do concelho obriga o Estado a reforçar o investimento em habitação, saúde, educação e acessibilidades, enquanto o presidente da CCDR Alentejo, Ricardo Pinheiro, apelou a um "lobbying justo", que permita adequar os investimentos públicos à realidade do território.

Na intervenção de abertura dos trabalhos da manhã, Miguel Morgado, professor da Universidade Católica Portuguesa, lançou uma reflexão sobre a necessidade de a Europa recuperar ambição económica: “Na Europa só se fala de resiliência e nunca de crescimento e desenvolvimento”, afirmou, defendendo uma mudança da cultura pública que permita voltar a colocar o crescimento económico no centro das políticas europeias.

No painel dedicado ao impacto dos choques climáticos, Carlos Vicente, da Vitacress, Helena Cortes Cavaco, da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo (CCDR Alentejo), Luís Souto Barreiros, do Instituto de Financiamento da Agricultura e Pescas (IFAP), e Miguel Morgado defenderam uma agricultura mais preparada para responder às alterações climáticas, assente em tecnologia, simplificação administrativa, seguros mais flexíveis e instrumentos públicos mais ágeis.

Na reflexão sobre competitividade internacional, Gonçalo Santos Andrade, presidente da Portugal Fresh, alertou que, mantendo-se a tendência atual, a União Europeia poderá registar, pela primeira vez, uma balança comercial agroalimentar negativa até ao final da década, defendendo maior investimento em água, inovação e reciprocidade nas regras comerciais internacionais.

A estratégia 'Água que Une' voltou a assumir destaque com a intervenção de Macário Correia, presidente da AdP AQUA, que apresentou os investimentos previstos para o Aproveitamento Hidroagrícola do Mira, incluindo a modernização do sistema de rega, novas captações e reforço da eficiência hídrica.

O encerramento esteve a cargo do presidente da CAP - Confederação dos Agricultores de Portugal, Álvaro Mendonça e Moura, que defendeu que a agricultura deve ser encarada como um setor de crescimento económico: “não podemos ter um país com a ambição de crescer no setor industrial e no comércio, mas em que a agricultura é um setor para conversar. É um setor para crescer. Para se desenvolver. Para dar lucro”. Mendonça e Moura voltou a sublinhar que água, mão de obra, habitação, promoção e capacidade de resposta das instituições públicas serão determinantes para assegurar o futuro da agricultura portuguesa.

Ao longo das suas oito edições, o Colóquio Hortofrutícola da Lusomorango consolidou-se como um dos principais fóruns nacionais de reflexão sobre o futuro da agricultura portuguesa. O evento reúne anualmente responsáveis políticos, especialistas, empresários e representantes do setor para discutir os grandes desafios e oportunidades da agricultura, com o objetivo de contribuir para a definição de soluções que reforcem a competitividade, a ambição e a sustentabilidade da agricultura nacional, promovendo um diálogo aberto entre conhecimento científico, políticas públicas e experiência empresarial.

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