A inteligência artificial (IA) deixou de ser um conceito associado apenas ao futuro da indústria para começar a integrar o quotidiano de muitas operações produtivas. Na indústria alimentar, onde fatores como eficiência operacional, segurança alimentar, rastreabilidade e sustentabilidade assumem uma importância crescente, as tecnologias digitais começam a afirmar-se como ferramentas capazes de responder a alguns dos principais desafios do setor.
Contudo, a realidade portuguesa continua marcada por diferentes níveis de maturidade digital. Como observa Deolinda Silva, diretora executiva da PortugalFoods, a indústria alimentar nacional tem vindo a fazer um percurso positivo na digitalização, mas apresenta diferenças significativas entre empresas, refletindo a diversidade do setor e a predominância de micro e pequenas empresas, nem sempre com a mesma capacidade de investimento.
O diagnóstico realizado no âmbito do Roteiro para a Descarbonização do Setor Agroalimentar, desenvolvido pela PortugalFoods em parceria com a Inovcluster e a Câmara de Comércio e Indústria de Ponta Delgada, mostra que existe uma consciência crescente sobre a importância da transformação digital. As empresas conhecem os princípios da Indústria 4.0 e reconhecem o potencial das novas tecnologias para aumentar a eficiência, a competitividade e a sustentabilidade. Ainda assim, a velocidade da adoção permanece desigual.
Segundo a responsável, enquanto algumas organizações já recorrem a soluções avançadas de automação, monitorização em tempo real e análise de dados, uma parte significativa do tecido empresarial continua numa fase inicial do processo de digitalização. O desafio passa agora por acelerar essa transformação de forma transversal ao setor.
Apesar da crescente atenção em torno da IA, a adoção destas tecnologias permanece limitada em muitas empresas. Os dados recolhidos pela PortugalFoods mostram que a adoção de tecnologias mais avançadas continua a ser relativamente reduzida. As aplicações empresariais, como ERP e CRM, permanecem as soluções mais disseminadas no setor. Ferramentas de integração da cadeia de abastecimento e conectividade operacional, como EDI e IoT, começam a ganhar espaço, mas ainda com uma expressão limitada. Já a IA, os gémeos digitais e a realidade aumentada ou virtual permanecem longe da utilização generalizada, sendo ainda consideradas tecnologias emergentes por grande parte das empresas. Esta situação ajuda a explicar porque continua a existir um desfasamento entre o potencial da IA e a sua utilização efetiva.
Como refere Deolinda Silva, antes de implementar IA é necessário garantir condições básicas que nem todas as empresas possuem: processos digitalizados, dados estruturados e infraestruturas tecnológicas adequadas. A estes fatores juntam-se a necessidade de desenvolver competências especializadas, preparar equipas para novas formas de trabalho e demonstrar o retorno económico dos investimentos, uma questão particularmente sensível para muitas PME.
Na perspetiva da PortugalFoods, acelerar a transformação digital implica não apenas investir em tecnologia, mas também reforçar competências, promover projetos-piloto e estimular a colaboração entre empresas, universidades, centros de investigação e entidades de interface.
A responsável destaca, neste campo, o trabalho desenvolvido no âmbito do projeto DigitalFOOD, promovido em parceria com a Fraunhofer Portugal (AICOS), que inclui workshops de ideação em IA destinados a ajudar as empresas a identificar oportunidades concretas de aplicação destas tecnologias e a transformá-las em projetos implementáveis. Na sua perspetiva, a prioridade até 2030 passa por consolidar as bases da transformação digital, criando as condições para que, numa fase seguinte, tecnologias como a IA, a automação avançada e os gémeos digitais assumam um papel mais relevante na competitividade do setor.
O projeto DigitalFOOD é promovido pela PortugalFoods e pela Fraunhofer Portugal (AICOS).
Na Sovena, produtora e distribuidora de azeite e óleos alimentares, a digitalização está longe de se limitar ao ambiente fabril. Numa atividade particularmente dependente das condições climatéricas e da variabilidade das matérias-primas, a empresa tem vindo a apostar na recolha e utilização intensiva de dados ao longo de toda a cadeia de valor.
A empresa recorre atualmente a projetos de agricultura de precisão que incluem sensorização dos campos, monitorização por satélite e por drone e digitalização das operações agrícolas. O objetivo é simples: recolher informação em tempo real sobre o estado das culturas para apoiar decisões mais rápidas e fundamentadas.
A utilização de big data e modelos preditivos permite igualmente otimizar recursos críticos, como a água e os fertilizantes. Combinadas com soluções de rega inteligente, estas ferramentas tornam possível ajustar quantidades, momentos de aplicação e localização dos recursos com maior precisão, aumentando a produtividade e reduzindo desperdícios.
Num contexto de crescente volatilidade e incerteza na disponibilidade de recursos, a Sovena considera que esta capacidade de monitorização e gestão é determinante para “assegurar eficiência ao longo de toda a cadeia, desde a produção agrícola até à transformação industrial”.
Essa antecipação assume particular relevância num setor fortemente condicionado por fatores externos. A empresa refere que o recurso a modelos preditivos e à monitorização em tempo real possibilita identificar riscos mais cedo, ajustar operações e aumentar a resiliência da cadeia de valor perante oscilações climáticas ou de disponibilidade de recursos.
Nas operações industriais, os benefícios da automação e da análise avançada de dados tornam-se particularmente visíveis nas áreas de transformação e embalamento. Segundo a Sovena, a integração de sistemas, a monitorização contínua dos processos e a análise de dados “permitem ganhos significativos ao nível da produtividade, consistência, flexibilidade e eficiência operacional e energética”.
Em operações industriais de elevada escala, caracterizadas por múltiplas linhas de produção, diferentes formatos e consumos energéticos elevados, a otimização dos parâmetros de processo assume um papel central na redução de desperdícios e na estabilização da produção.
A rastreabilidade e o controlo de qualidade constituem outras áreas onde a “utilização de dados e a digitalização está a produzir resultados relevantes, permitindo um controlo mais rigoroso desde a origem agrícola, até ao produto final, e garantindo consistência e cumprimento dos padrões mais exigentes”. A empresa destaca a capacidade de monitorizar continuamente os processos, identificar desvios numa fase precoce e atuar mais rapidamente, reduzindo riscos e reforçando a confiança dos clientes e consumidores.
“A integração destas ferramentas com sistemas laboratoriais e de controlo permite ainda aumentar a transparência e a fiabilidade”, aspetos cada vez mais valorizados pelos mercados e pelos consumidores, destaca a empresa.
Para a Sovena, um dos maiores desafios tecnológicos não está apenas no desenvolvimento de novas soluções, mas na sua aplicação em contexto industrial. A empresa sublinha que garantir o funcionamento de uma tecnologia em ambiente laboratorial é substancialmente diferente de assegurar a sua robustez, repetibilidade e viabilidade económica à escala industrial. Neste contexto, a inovação colaborativa e a ligação ao sistema científico assumem um papel determinante para testar, validar e acelerar a implementação de novas tecnologias, reduzindo riscos e encurtando os tempos de adoção.
“O principal desafio da indústria alimentar não é a IA em si, mas sim a maturidade digital das operações”, declara Paulo Gaspar, CEO e cofundador da Brainr. Segundo o responsável, muitas empresas procuram implementar soluções avançadas quando ainda dependem de registos em papel, folhas de cálculo dispersas ou sistemas incapazes de comunicar entre si. Nestas condições, “o impacto da IA tende a ser reduzido”. A experiência da Brainr mostra que os maiores ganhos surgem quando a produção, a qualidade, a rastreabilidade e a logística passam a ser geridas através de plataformas digitais integradas.
Segundo Paulo Gaspar, esta integração proporciona uma visibilidade muito mais clara da operação em tempo real, permitindo identificar desvios mais rapidamente, reduzir o tempo gasto na análise de problemas e acelerar a resposta das equipas.
É também nesta área que a IA está atualmente a gerar maior valor. Em vez de substituir pessoas, a tecnologia está a ajudar equipas de produção “a tomar decisões melhores e mais rápidas”. “As aplicações com maior impacto são aquelas que apoiam a operação diária: identificar desvios de rendimento, antecipar problemas de qualidade, apoiar o planeamento da produção perante alterações de encomendas ou disponibilidade de matéria-prima e transformar grandes volumes de dados operacionais em informação útil para quem gere a fábrica”, indica a Brainr.
Para Paulo Gaspar, o futuro passará por uma integração cada vez mais natural destas capacidades no software utilizado diariamente pelas fábricas. Nos próximos anos, será cada vez mais comum que responsáveis de produção interajam com os sistemas através de linguagem natural, questionando diretamente o sistema sobre causas de desperdício, desvios de produtividade ou ações necessárias para recuperar planos de produção.
“Mais do que automatizar tarefas, a IA deve ser encarada como uma ferramenta de apoio à decisão. O seu principal contributo será acelerar a capacidade de decisão das equipas, permitindo-lhes atuar mais cedo e com melhor informação, sem substituir o conhecimento das pessoas”, refee Paulo Gaspar, que, para concluir, deixa ainda outra ideia fulcral: “Acreditamos que a vantagem competitiva dos próximos anos não será determinada pelas empresas que utilizam mais IA, mas por aquelas que conseguirem combinar pessoas, processos, dados e IA numa operação verdadeiramente integrada”.
Se a IA está a transformar a forma como as empresas analisam informação, a robótica inteligente está a alterar a própria organização das operações industriais.
A Inspire Robotics tem vindo a desenvolver robôs móveis autónomos, os AMRs (robôs móveis autónomos), capazes de circular de forma independente em ambientes industriais, sem necessidade de infraestruturas dedicadas ou alterações profundas nas instalações.
Recorrendo à IA, estes sistemas conseguem reconhecer pessoas, empilhadores e obstáculos, ajustando os seus percursos em tempo real para garantir segurança e continuidade operacional. Segundo a empresa, o principal objetivo não é substituir trabalhadores, mas libertá-los de tarefas repetitivas e de baixo valor acrescentado, permitindo que se concentrem em atividades que exigem experiência e capacidade de decisão.
Os exemplos já implementados mostram benefícios que vão além da simples automatização do transporte de materiais: “Os resultados sentem-se no dia a dia. Na Sonae, os nossos robôs levam paletes do armazém para a placa de vendas do GaiaShopping e trazem de volta as paletes vazias e são os próprios colaboradores que dão a ordem, a partir de um tablet. Na Cork Supply, um AMR abastece as mesas de trabalho com tabuleiros de frascos e trata das recolhas conforme a produção vai pedindo”.
A empresa destaca ainda que estas soluções ajudam a responder a uma dificuldade crescente sentida por muitas organizações industriais: a escassez de profissionais para funções de movimentação interna. Ao assumirem tarefas repetitivas e fisicamente exigentes, os robôs permitem libertar recursos humanos para atividades de maior valor acrescentado.
A informação recolhida pelos próprios robôs constitui outra vantagem relevante. Cada missão gera dados sobre percursos, tempos de execução e níveis de utilização, oferecendo às empresas uma visão mais detalhada da operação e novas oportunidades de melhoria contínua.
Para a Inspire Robotics, o maior obstáculo à adoção destas soluções já não é tecnológico, mas perceber onde fazem mais sentido. A empresa alerta que nem todos os processos devem ser automatizados. “O desafio está mesmo em identificar as tarefas que comem mais tempo, acrescentam menos e travam o ritmo da operação. Quando essa análise é bem feita, o retorno do investimento salta à vista”, esclarece.
Num setor confrontado com dificuldades de recrutamento, pressão sobre os custos e crescente complexidade operacional, a empresa acredita que será cada vez mais difícil imaginar uma indústria alimentar competitiva sem algum grau de automação inteligente. O futuro, defendem, passará por operações onde pessoas e robôs trabalham em conjunto, combinando flexibilidade humana com eficiência tecnológica.

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