A GS1 Portugal reuniu os principais intervenientes do setor hortofrutícola para discutir os desafios que marcam atualmente a cadeia de abastecimento, num contexto de crescente pressão sobre a sustentabilidade, a eficiência logística, a rastreabilidade, a rentabilidade e a adaptação tecnológica.
Encontro Hortofrutícolas. Foto: GS1.
A GS1 Portugal promoveu o 3.º Encontro Hortofrutícolas, iniciativa que juntou produtores, retalhistas, associações setoriais, operadores logísticos e autoridades fiscalizadoras para debater soluções capazes de aumentar a eficiência, a colaboração e a competitividade da cadeia de valor.
Na abertura do encontro, Paulo Gomes, diretor-geral da GS1 Portugal, defendeu uma cadeia assente na partilha de dados “fiáveis, interoperáveis e verificáveis”, acessíveis a todos os operadores, sublinhando o papel da organização enquanto facilitadora da transição digital do setor.
Também João Dias, do Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração-Geral do Ministério da Agricultura e Mar, destacou o crescimento consistente do setor hortofrutícola em Portugal, evidenciado pelo aumento da área de produção e pelo recorde de exportações alcançado em 2024, num contexto em que a União Europeia representa 80% das vendas externas. Ainda assim, alertou para desafios relacionados com a revisão da Política Agrícola Comum (PAC), as alterações climáticas, a gestão do regadio, a fitossanidade, a escassez de mão de obra e o aumento dos custos de produção.
Durante a sessão dedicada às tendências do mercado, Sílvia Mendonça, brand & customer development director da Vitacress, identificou os principais fatores de transformação do setor, apontando o crescimento da procura por soluções alimentares mais saudáveis e práticas, bem como os desafios associados à rentabilidade, à qualidade e segurança alimentar, à sustentabilidade e ao impacto crescente da tecnologia e da inteligência artificial.
Já Rodrigo Vinagre, presidente do Centro Operativo e Tecnológico Hortofrutícola Nacional, alertou para a necessidade de promover uma maior organização dos produtores e uma distribuição mais equilibrada do valor ao longo da cadeia. Também Domingos Joaquim Filipe dos Santos, da Associação Nacional das Organizações de Produtores de Frutas e Hortícolas, reforçou a importância da organização dos agricultores e destacou o papel estratégico do regadio, defendendo que o problema não é a falta de água, mas sim a reduzida capacidade de armazenamento e distribuição.
A evolução tecnológica esteve igualmente em destaque. Raquel Abrantes, diretora de qualidade e standards da GS1 Portugal, explicou que a nova geração de códigos bidimensionais representa uma evolução relevante para o setor, permitindo maior capacidade de armazenamento de informação e formatos de impressão mais reduzidos. A responsável recordou ainda que a transição acompanha a ambição global do retalho para 2027, ano em que os sistemas de ponto de venda deverão estar preparados para ler este tipo de códigos.
Neste contexto, Pedro Manuel, founder e CEO da Bitcliq Technologies, apresentou o projeto ‘O Génio da Embalagem no Morango 4.0’ como exemplo prático da aplicação da codificação 2D. Segundo explicou, um único código pode responder simultaneamente às necessidades operacionais do ponto de venda e funcionar como ferramenta de comunicação direta entre produtor e consumidor, disponibilizando informação nutricional, rastreabilidade, reciclagem e outros conteúdos digitais.
A digitalização da cadeia de abastecimento foi outro dos temas centrais do encontro. Bárbara Fraga, executive director of supply chain and logistics consulting da Logistema, apresentou a plataforma colaborativa Flowpack para a cadeia hortofrutícola, defendendo que a integração da informação, o planeamento colaborativo e a digitalização são fundamentais para aumentar a eficiência logística, reduzir custos e melhorar a capacidade de resposta a disrupções, com impacto económico, ambiental e social.
Durante o evento, a GS1 Portugal apresentou também as conclusões da segunda edição do estudo ‘Tracking Hortofrutícolas’. Os resultados de 2025, obtidos com a participação de 19 fornecedores e seis retalhistas, indicam uma relação comercial sólida, embora revelem margem para melhorar a agilidade, a partilha de informação e a colaboração entre os diferentes intervenientes da cadeia.
O estudo mostra que a frescura e o estado dos produtos no momento da entrega continuam a ser as principais prioridades do retalho, apesar dos níveis positivos de desempenho registados em áreas como o controlo de temperatura e a rastreabilidade. Do lado dos retalhistas, persistem necessidades de melhoria ao nível da comunicação de ocorrências, da gestão de picos de procura e da abertura à inovação e ao planeamento conjunto.
A perspetiva espanhola foi apresentada por Vitor Aparicio González, supply chain project manager da AECOC/GS1 Spain, que deu a conhecer o estudo ‘Tracking Frescos, Frutas e Legumes’, criado para avaliar os níveis de serviço e a eficiência logística e comercial da cadeia de abastecimento. O responsável destacou que, num contexto marcado pela pressão sobre os stocks, pela volatilidade económica e geopolítica e pelos impactos das alterações climáticas, a colaboração entre fornecedores e retalhistas torna-se cada vez mais relevante.
Na entrega de prémios do estudo, conduzida por João Mónica, key account manager da GS1 Portugal, a Planície Verde foi distinguida em primeiro lugar na categoria de fornecedores, enquanto a MC Sonae recebeu o prémio na área do retalho.
No debate final sobre os desafios da cadeia de abastecimento de frutas e legumes, os participantes voltaram a destacar a importância da partilha de informação, do planeamento e da colaboração entre produtores, retalhistas e operadores logísticos. Luís Correia, CEO da Planície Verde, defendeu o aproveitamento do estudo para identificar oportunidades de melhoria e reduzir o desperdício alimentar. Manuel Reis, CEO da Campotec, salientou a utilidade de avaliações alargadas entre empresas para reforçar a qualidade do produto, enquanto Octávio Alvarez, diretor de distribuição e logística do El Corte Inglés, sublinhou as exigências crescentes dos consumidores relativamente à frescura e qualidade, bem como o papel estratégico dos operadores logísticos na eficiência da cadeia.
No encerramento, Artur Andrade, diretor de community engagement da GS1 Portugal, reforçou o compromisso da organização em continuar a aproximar-se do setor, promovendo uma comunidade focada na análise de tendências, necessidades e oportunidades, através de soluções assentes em standards, colaboração e inovação.
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